O Travesseiro
O velho acordou naquela manhã, inspirou fundo, e soube imediatamente que isso não aconteceria no dia seguinte. Decidiu não abrir os olhos. Ficou deitado, imóvel, sentindo cada parte do seu corpo abandonar a vida devagar. Tentou inspirar fundo novamente, mas parecia que o ar que conseguia já não lhe bastava. Continuou deitado, imóvel, de olhos bem fechados. Não estava pensando em nada em particular, foi quando sentiu seu travesseiro ser ajeitado por mãos frias. Instintivamente abriu os olhos e teve sua alma inundada pela intensa luz que entrava pela janela. Quando sua vista adaptou-se ao ambiente, olhou levemente para o lado para ver de quem se tratava e depois se voltou para mesma posição, fechando os olhos novamente.
Permaneceu assim durante um tempo
indeterminável, enquanto lembranças vagas de sua vida, nenhuma em especial,
entravam e saiam de sua cabeça. De repente sentiu um frio cruel e sorrateiro
apoderar-se lentamente das pontas de seus dedos. Não era a primeira vez. Aos
poucos, seus pés e mãos, pernas e braços. Sentia que, à todo custo, o frio
tentava tocar seu coração. Mas ele sabia que ainda não era a hora, pois o toque
gélido, no fim, sempre retrocedia e desaparecia. Algumas vezes o frio era tão forte,
que podia jurar que neve se acumulava em sua cabeça. Mas eram apenas seus
cabelos brancos.
Ficou o resto do dia a observar a janela,
os pássaros, a luz do Sol, o pôr do Sol. Até que, quando já havia escurecido,
decidiu levantar-se para tomar um copo d'água. Quando saiu da cama, entendeu
imediatamente que quando deitasse nela de novo, morreria. E por algum motivo,
algum motivo estranho, começou a rir. E
riu com vontade, até sentir dores. Então, como que golpeado por um soco,
viu de relance no canto escuro do quarto um rosto que desconhecia. Alguns
segundos depois, percebeu ser apenas seu reflexo no espelho. Apesar disso, não
se sentiu aliviado. Aproximou-se e viu um homem cheio de rugas, cansado e
velho. Então, foi invadido por lembranças da infância e da juventude, momentos
felizes e tristes, quando sorria e quando chorava. Quando fazia caretas,
resmungava, cantava... Agora, sem fazer nada disso, possuía todas as marcas da
época em que havia feito. Sentiu ódio do espelho. Inimigo cruel, que mostra a
qualquer um sua mais pura realidade, pensou.
Riu do seu ódio, logo depois.
Encaminhou-se para a cozinha e serviu-se de água fresca. Depois de alguns goles, percebeu que não sentia mais o gosto d’água. E mal chegara a esta conclusão quando lembrou-se de que água não tinha gosto. No entanto, não estava certo do que pensar. O dilema exigia demais de seu paladar e memória, e os dois pareciam já o ter abandonado. A única coisa que ainda tinha certeza, é que a morte havia ajeitado seu travesseiro pela manhã. E como ele ainda era um cavalheiro, não deveria deixar uma dama esperando.
Encaminhou-se para a cozinha e serviu-se de água fresca. Depois de alguns goles, percebeu que não sentia mais o gosto d’água. E mal chegara a esta conclusão quando lembrou-se de que água não tinha gosto. No entanto, não estava certo do que pensar. O dilema exigia demais de seu paladar e memória, e os dois pareciam já o ter abandonado. A única coisa que ainda tinha certeza, é que a morte havia ajeitado seu travesseiro pela manhã. E como ele ainda era um cavalheiro, não deveria deixar uma dama esperando.